08 de Fevereiro 2010
Edição #133
2010

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Entrevistas e Artigos

Helloween/Gamma Ray - São Paulo/SP - 20/04/2008














JOGANDO COM O DIABO NA TERRA DOS LIVRES

Por Carlo Antico/Fotos: Ricardo Zupa

Domingo, 20 de janeiro, véspera de feriado de Tiradentes e data de uma das partidas de futebol mais esperadas desse ano, o jogo de volta entre Palmeiras e São Paulo pela semifinal do Campeonato Paulista (vencido pelo Palmeiras). Porém, para quem gosta de Heavy Metal, além de futebol, era o dia de testemunhar uma das mais esperadas e históricas uniões da história do Heavy Metal mundial: Helloween e Gamma Ray juntos.

Tal união era vista como impossível há pouco tempo atrás, dadas as conhecidas rusgas entre Kai Hansen (vocalista e guitarrista do Gamma Ray, membro fundador do Helloween) e Michael Weikath (guitarrista original do Helloween). Os problemas foram resolvidos já há algum tempo (Kai chegou a subir no palco com a banda no "Wacken" de 2004, como testemunhado pela Roadie Crew), mas só agora as bandas de fato resolveram fazer uma turnê conjunta.

O mais esperado, era que no final do show, rolaria uma jam com as duas bandas juntas (exceção feita ao baterista do Gamma Ray, Dan Zimmerman) tocando duas músicas da fase áurea do Helloween (leia-se os dois Keepers Of The Seven Keys, quando a banda tinha Kai Hansen na formação), possivelmente Future World (Keeper 1) e I Want Out (Keeper 2).

Porém, vivemos na época da informação na velocidade da luz e os sites, blogs e comunidades do Orkut já noticiavam que no show de Curitiba (PR), a jam não havia rolado, o que causou uma certa apreensão nos fãs presentes no show da capital paulista.

Como a partida futebolística teve um “apagão” de luzes no final, ela acabou terminando um pouco mais tarde e como o Credicard Hall é bem longe para a maioria das pessoas, muita gente que tinha programado sair apenas depois do jogo, ainda estava estacionando os carros ou correndo para a entrada da casa de shows,quando os ponteiros dos relógio já se aproximavam das 20h, horário marcado para o início da apresentação do Gamma Ray.

Aliás, apenas a título de curiosidade, como palmeirense posso dizer tranqüilamente que nunca vi tanta camisa do Palmeiras em um show, nem na época que o time ganhou a Libertadores. Mas voltemos ao Heavy Metal que é o que importa aqui.

Um pouco antes dessa correria, aconteceu um fato lamentável: não se sabe o porquê realmente, mas a grade que separa o público do palco caiu, e fez com que todo mundo da primeira fila se espremesse no gargarejo, o que simplesmente impossibilitou o trabalho dos fotógrafos profissionais de imprensa para registro dos shows. As fotos teriam que ser tiradas de algum outro lugar, improvisado. Mérito para os seguranças,que impediram que alguém quisesse subir no palco no peito e na raça.

Pontualmente às 20h, a introdução Welcome anunciava a entrada do Gamma Ray no palco, decorado, ao fundo, com um “backdrop” que mostrava a capa do novo álbum, Land Of The Free II.

A banda emendou com Into The Storm, seguida por um dos maiores clássicos da banda e uma das músicas mais adoradas pelos fãs brasileiros, Heaven Can Wait. É muito legal poder ouvir essa música ao vivo, já que se não me engano, essa é a quinta passagem da banda por aqui, mas apenas a terceira vez que ela é executada, a segunda em seguida. A noite prometia.

Na seqüência, veio New World Order, seguida por Fight e Empress. Depois dessa,o show tinha tudo para se tornar sensacional, já que veio mais um clássico, a ótima Valley Of The Kings, além do hino Rebellion In Dreamland ( cantada em uníssono pelo público ).

Aí foi a vez de Heavy Metal Universe e aconteceu algo que quebrou totalmente o ritmo da apresentação. Tudo bem, entendo que a banda tenha que ter comunicação com os fãs e tal, mas esse negócio de parar a música para dividir platéia e cada parte cantar uma palavra é muito chato (N.R.: será que eu estou ficando velho?). Mesmo porque o Gamma Ray não tinha lá muito tempo e isso fez com que perdessem a oportunidade de tocar mais músicas! E olha, até que eu acho legal gritar a plenos pulmões que moramos em um Universo do Heavy Metal, mas não precisa parar a música para isso.

Porém, lembremos que estamos falando de Kay Hansen (guitarra/vocalista) aqui. O cara é um puta 'frontman', grande guitarrista e um excelente vocalista, além de contar com anos de experiência. Claro que ele manteve a galera nas suas mãos durante o show inteiro e ela ficou ainda mais hipnotizada com a execução da perfeita Ride The Sky.

E aí, quando era hora de tocar algum outro clássico para fazer o Credicard Hall cair, a banda mandou Somewhere Out In Space (nada contra) e enrolou mais ainda do que em Heavy Metal Universe no meio da música! Foi muito chato! Ainda assim a banda saiu ovacionada e quando voltou tocou Send Me A Sign disse para alguns amigos que estavam comigo: “Óbvio que ainda vão tocar Land Of The Free”. E não é que eles não tocaram? Absurdo! Como a banda vem fazer um show na turnê de Land Of The Free II e não toca um de seus maiores clássicos, que é homônimo do disco? Inadmissível! Foi como o Kiss em 1994 não tocar Rock And Roll All Nite e o Toto o ano passado não tocar I’ll Be Over You. Veja bem, o tempo que a banda enrolou em Hevy Metal Universe e Somewhere Out In Space dava para tocar mais umas três músicas: a própria Land Of The Free, Tribute To The Past, Man On A Mission, One With The World, etc. Contudo, a saldo do show foi bastante positivo e o Gamma Ray provou mais uma vez sua competência.

Depois do intervalo, era hora do Helloween. Os PA's começaram, assim como no show de 2006, a tocar For Those About To Rock do AC/DC e, quase no final da música, as luzes se apagaram. Ao final, entrou a Intro e as cortinas se abriram mostrando a bela capa do novo álbum, Gambling With The Devil, além de um grande boneco com cabeça de abóbora ao lado da bateria, que era bem legal, diga-se.

A banda entrou detonando com a épica Halloween, levando os presentes ao delírio na hora do excelente refrão. Seguiram com uma das melhores músicas da fase Andi Deris, Sole Survivor e aí veio talvez o maior momento da noite: a execução de March Of Time. Foi realmente emocionante ouvir essa música ao vivo e devo dizer uma coisa: sempre fui um crítico ferrenho de Andi Deris, especialmente com relação aos seus vocais nas músicas da fase Michael Kiske. Mas dessa vez não há do que reclamar. É óbvio que não ficou igual, mas ficou muito bom. Muito bom mesmo. Aliás, essa talvez seja a melhor fase da carreira de Andi no Helloween, depois de Master Of The Rings e Time Of The Oath.

O show seguiu com o excelente single do novo álbum, As Long As I Fall e uma coisa ficou clara na banda no palco: é realmente importante que as coisas estejam em harmonia entre os membros para que tudo funcione corretamente. Confesso que para mim, o Helloween era uma banda sepultada para sempre, especialmente após o terrível show do "Wacken" de 2004 (já citado aqui), a horrenda música Mrs.God e o medonho álbum Keeper Of The Seven Keys III. Porém, toda turbulência sofrida pela banda, como bem explicou Michael Weikath na sua última entrevista a Roadie Crew, realmente estava atrapalhando. A banda já fez um bom show em 2006, lançou um grande disco no ano passado e agora fazia seu melhor show no Brasil. Uma ressurreição.

Depois veio outro clássico do Keeper I, A Tale That Wasn’t Right, no qual Andi também se virou bem, seguido pelo sempre chato solo de bateria.

Na seqüência, a única música de Keeper III que dá para agüentar um pouco, King For A 1000 Years, que foi abreviada em 6 minutos de sua duração original, para que a banda mandasse Eagle Fly Free enlouquecendo o Credicard Hall .Para dar uma acalmada, foi o momento de mais uma do álbum novo, The Bells Of The Seven Hells.

Para terminar a primeira parte do show, tocaram If I Could Fly e outro hino, Dr.Stein.

Deixam o palco aclamados pelo público, e na volta fazem um bis bem incomum: um medley. Andi vestia um paletó brilhante vermelho, uma cartola e tinha uma varinha mágica nas mãos, para ilustrar a primeira música do 'medley': Perfect Gentleman. O 'medley' seguiu com a excelente I Can, Where The Rain Grows, voltaram para Perfect Gentleman (aí mais enrolação com brincadeiras com a platéia. Haja paciência!), Power (que contou com um erro de Sascha Gerstner que começou a música antes, mas a banda consertou muito bem) e finalizaram com os últimos versos de Keeper Of The Seven Keys.

Terminada a apresentação do Helloween, a dúvida apareceu na cabeça de todos: e agora, rola jam, ou não rola? Para a felicidade de todos, Michael Weikath (guitarra, Helloween), Sascha Gerstner (guitarra, Helloween), Markus Grosskoff (baixo, Helloween), Dani Löble (bateria, Helloween), Andi Deris (vocal, Helloween), Henjo Richter (guitarra, Gamma Ray), Kai Hansen (guitarra/vocal, Gamma Ray) e Dirk Schlächter (baixo, Gamma Ray) voltaram ao palco para tocar Future World e I Want Out para loucura do público que cantou as duas de ponta a ponta.

Impossível não se emocionar ao ver a cena histórica de Kai Hansen, Michael Weikath e Markus Grosskof juntos no palco tocando esses dois clássicos que compuseram há mais de vinte anos atrás.

Tirando as partes que critiquei aqui, que realmente empalidecem se compararmos com o geral da apresentação, foi uma noite para entrar para a história e que não sairá fácil da memória dos presentes, especialmente por causa jam final.